No fim dos anos 90, quando o Brasil ainda digeria o impacto das novas sonoridades que misturavam pop, rock e regionalidades com uma naturalidade quase tropicalista, nascia um projeto com cara de segredo bem guardado. Cogumelo Plutão não era, a princípio, uma banda — era um codinome, uma ideia, um refúgio criativo. Um alter ego concebido por Blanch Van Gogh em parceria com o produtor Paulo Ivanovitch, logo depois de uma temporada em Brasília que, ao que tudo indica, serviu como combustível artístico e existencial.
A proposta era simples e, ao mesmo tempo, ambiciosa: todas as canções partiriam de Blanch, como uma espécie de diário musical aberto ao público. Mas o destino tinha outros planos. Quando "Esperando na Janela" explodiu, o que era íntimo virou coletivo, o que era projeto virou fenômeno. De repente, o Cogumelo Plutão já não cabia mais na ideia inicial — ele pertencia às rádios, às trilhas sonoras, às ruas.
O álbum de estreia, Biblioteca de Sonhos (2000), não só consolidou esse sucesso como elevou o projeto a um patamar raríssimo: dois milhões e meio de cópias vendidas, presença marcante na novela Laços de Família e um clipe indicado ao VMB de 2001. Era a consagração de um som que dialogava com o grande público sem perder a identidade autoral — algo cada vez mais difícil naquele momento da indústria.
Em 2006, "Uma Vez Mais" embalou Alma Gêmea, reforçando essa conexão quase orgânica entre as composições de Blanch e o imaginário popular televisivo. Mas o Cogumelo Plutão sempre teve essa característica mutante, de aparecer, desaparecer e ressurgir com novas formas. Após um hiato, voltou com força — e com hits.
"Beijar na Boca" é um desses casos raros de música que ultrapassa fronteiras de estilo e autoria. Regravada por Claudia Leitte em 2009, virou um hino carnavalesco daqueles que parecem ter nascido prontos para multidões. Um ano depois, na voz de Chayanne, ganhou o mundo. Poucas canções conseguem esse tipo de trânsito com tamanha naturalidade.
Já em 2012, com presença na novela Amor Eterno Amor, o projeto se consolidava cada vez mais como um laboratório de estúdio, um espaço onde Blanch, agora ao lado de seu parceiro Dan Adrian, desenvolvia uma química criativa que se tornaria uma das mais sólidas do rock nacional contemporâneo. Juntos, eles construíram um repertório consistente, emocional e com forte apelo melódico — uma assinatura que atravessou décadas.
O reencontro em 2024, com Fell Rios e Max Perera, trouxe o Cogumelo Plutão de volta aos palcos, fechando um ciclo e abrindo outro. Os EPs Voando Pelo Campo dos Sonhos, Amor à Primeira Vista e Eu Quero Tanto, além do álbum Relíquias, funcionam quase como um baú aberto — canções que atravessaram o tempo, agora lapidadas com a engenharia precisa de Ivan Beretta.
Em 2025, o projeto ganhou ainda mais corpo com um EP acústico delicado, enriquecido pelo violino de Luciano Reis, e um registro ao vivo no Teatro Túlio Piva, em Porto Alegre, que virou especial para o Music Box Brasil. Um momento simbólico: o projeto que nasceu como pseudônimo de estúdio agora se reafirma também no palco, diante do público, com história, repertório e identidade.
Cogumelo Plutão é isso: uma ideia que cresceu demais para caber em qualquer rótulo. Uma mistura de sensibilidade pop, ambição autoral e timing perfeito com o espírito do tempo. E, no centro de tudo, Blanch — inquieto, constante, e sempre um passo à frente do próprio caminho.